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Dias 1º e 2 de setembro, São Paulo recebe a banca lusobrasileira “Língua Franca”, formada pelos parceiros de longa data Emicida e Rael, que pegaram um transatlântico daqui a Portugal para se juntar à portuguesa Capicua. Da união saiu disco, fizeram show no Rock in Rio Lisboa e agora eles têm duas datas de show aqui em São Paulo, nos SESC São Carlos e Itaquera. O trio conversou brevemente comigo sobre o processo de composição do disco, sobre os talentos específicos de seus colegas e também a questão que deixou os fãs coçando a cabeça: “e o Valete?” Você lê tudo isso aqui agora. Mas antes, o serviço do pagode:

Língua Franca @ São Carlos

Dia 01/09, sábado, às 20h.

Sesc São Carlos (Av. Comendador Alfredo Maffei, 1985 – Jardim São Carlos)

Ingressos: R$ 30,00 / R$ 15,00 / R$ 9,00. Clique aqui pra mais info.

Classificação: 14 anos

Língua Franca @ São Paulo

Dia 02/09, (domingo) domingo, às 15h30

Sesc Itaquera (Av. Fernando do Espírito Santo Alves de Mattos, 1000)

Entrada gratuita

Censura: Livre

Ronald: O que foi mais divertido no processo de construção dessa banca lusobrasileira?

Emicida: O convívio. Poder estar ali com Fred, com Capicua… a Capicua, mano, que daora foi gravar com ela! O Rael eu já tenho intimidade com ele de vários estúdios mas eu sempre fico surpreso com o talento dele. A capacidade dele resolver “pá pum”, manja? As sugestões melódicas que ele têm acabam influenciando o jeito que todo o resto do time escreve. Mas duas coisas que eu vivi são curiosas.

Ronald: O quê?

Emicida: Primeiro foi viver uma residência de 10 dias pra fazer música. Eu ainda tive que sair rapidinho pra tocar na Hungria. Então foram pelo menos uns 6 dias ali, 100% no bagulho.

Ronald: E a outra?

Emicida: Isso vai ser paradoxal: pela primeira vez eu fui um funcionário de uma gravadora, porque o Língua Franca foi feito pela Sony Music de Portugal.

Ronald: Não foi feito pela Lab?

Emicida: A Lab teve um trabalho de curadoria, produção, desenvolvimento, mas em parceria com a Sony de lá. E pela primeira vez eu fui um funcionário na indústria da música. E eu achei isso muito legal…

Ronald: Por quê?

Emicida: Porque em geral aqui, mano, isso até ofende um pouco as pessoas, mas eu sou livre, né? 100%. Não que eu tenha sido preso no processo do Língua Franca mas era uma parada diferencial bacana você poder contar com uma direção artística, porque o Fióti estava ali nessa função, e em outras também. O feedback da rapaziada que trabalha na Sony Music foi bastante importante. Contar com esse entorno durante a produção do álbum foi não só fundamental, mas pessoalmente falando, pra mim foi muito divertido. Porque em geral a gente faz música aqui na Laboratório Fantasma seguindo única e exclusivamente os princípios do nosso coração, dos nossos valores. Foi isso que fizemos no Língua Franca também? Foi. Mas tinha uma parada profissional diferente do modo com o que a gente trabalha aqui. Eu achei que foi muito divertido ir lá porque pra mim foi tipo uma escola.

Ronald: Falar sobre uma faixa em específico aqui do disco, “Egotrip”. Ela é aqueles rap mais diretão, lembra coisa de mixtape. Pela natureza do projeto, com muitas cabeças, você acha que acabou rolando, numa faixa que você pega pra resolver, até mais liberdade do que no seu próprio disco por não caber dentro da narrativa que você quis contar? Porque por exemplo, a “Egotrip” é uma música que não cabe no “Sobre Crianças…”

Emicida: Eu acho que sim. Às vezes você tem um conceito e uma parada que é divertida de fazer como a “Egotrip” não cabe dentro dele. Essa música nasceu no finalzinho da gravação do disco. Eu tenho um histórico de batalha de rap, essa viagem de ficar mergulhando no próprio ego. Eu acho que controlo meu ego muito bem e dentro do estúdio eu sou livre pra soltar esse 100%. E essa batida (produzida por Kassin, NAVE Beatz e Fred Ferreira), pelamordedeus. Dá vontade de ficar rimando nela pelo resto do dia.

Ronald: O assunto mais delicado: o que aconteceu com o Valete que ele não está nesses shows com o Língua Franca em São Paulo como não esteve em Portugal, bem como a gente ouvindo o CD mesmo, percebe que ele está em menos faixas que os outros artistas?

Emicida: Mano, foram escolhas do Valete. Meio que condições dele. Eu imaginei que ele fosse participar mais, estar mais inteirado. Eu queria que a vivência tivesse sido mais profunda com todo mundo mas o Valete desde o primeiro dia se marcou como uma pessoa um pouco mais destacada, bem mais reservada, então ele acabou não participando desse processo com a mesma intensidade. Ele fez a parte dele separado, tipo, ok, é uma visão de mundo do cara mas isso é visível no disco. E nos shows também foi uma parada… pelo momento de vida, não sei, pela visão que ele tinha, acabou que ele optou por não querer participar de muitas coisas. Enfim, foi uma decisão que a gente respeitou. Só que eu, a Capicua e o Rael estávamos numa sintonia muito bacana e não queria deixar a parada morrer ali. A gente queria levar o projeto pra frente e é o que a gente tem feito.

Ronald: Capicua, seu flow é muito gostoso de ouvir, tem uma sonoridade redonda, tudo bem musical e cortando como faca. Como você moldou seu jeito de cantar rap?

Capicua: Com o tempo e com trabalho… acho que é assim com todo o mundo. Há um jeito natural, mas depois vamos limando arestas com a experiência, até atingir um estilo próprio.

Ronald: Suas letras são extremamente diretas. Rimar é uma experiência de libertação pessoal pra ti?

Capicua: Sim. É uma forma de catarse e celebração. Serve para digerir as coisas más e marcar as boas.

Ronald: Está empolgada pra estar mais em contato com o público brasileiro?

Capicua: Muito! Eu adoro o Brasil e voltar é sempre um presente! Mal posso esperar.

Ronald: Rael, eu acho “A Chapa é Quente” foda porque é aquele rap “Back and forth” de ter dois mcs um respondendo o outro ali, uma parada análoga à embolada dos repentistas. Daonde veio a ideia de montar essa com o Emicida?

 

Rael: A gente tava no estúdio, ali na linha de produção. Eu fiquei encarregado de fazer os refrões e as minhas partes. Chegou uma hora em que eu estava gripado e o Leandro começou a fazer “A Chapa é Quente” sozinho. Ele desenrolou sozinho a construção, eu só dei uma aparada ali no refrão, mas a composição é toda do Emicida.

Ronald: Teve uma diferença fundamental na composição desse disco por conta da noção que vocês enquanto artistas estavam criando algo intencionalmente pensado para dois continentes?

Teve uma parada de pensar nos dois continentes mas não dum jeito forçado “quero que pegue Brasil e Portugal”. Acho que rolou naturalmente, tipo “eu quero mostrar meu jeito de fazer rap”. Porque eu quero que Portugal conheça mais sobre a minha quebrada, sobre o jeito que eu falo, sobre as minhas gírias, porque existe uma grande diferença da “norte do Emicida” pra “sul do Rael”. Tem gíria que só se fala na ZN do Emicida, tem gíria que é só da minha quebrada. Tanto eu quanto o Emicida e a Capicua tentou trazer o máximo da sua realidade pra esse projeto, pra ser uma coisa para explicar de onde a gente veio e para onde vai. O Língua Franca é sobre compartilhar as coisas subjetivas.

Ronald Rios

 

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