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Um brasileiro, um colombiano e um chileno entram num bar. Isso podia ser o começo duma piada mas é só trocar “bar” por “estúdio” e estamos falando de mais um pedacinho dos tentáculos de Emicida se esticando pela América Latina. Dessa vez Leandro Roque de Oliveira, rapper paulistano oriundo das batalhas de MCs – os jornalistas abrem textos sobre o Emicida assim até hoje, 10 anos depois de Triunfo, num orgulhoso exercício de falta de criatividade – gravou um feat no remix de “Canción Bonita”, single de 2017 da banda chilena Moral Distraída. Quem chegou junto também na nova versão foi o colombiano Jiggy Drama. A gente bateu um papo com Emicida e Camilo Schriever (percussionista e empresário da banda) sobre a parceria, que já está disponível para você ouvir. Vamos a isso, senhoras e senhores.

 

SOBRE A RESPONSABILIDADE POLÍTICA DE UNIR ARTISTAS LATINOS

“Existe uma teoria que diz que cortar o intercâmbio entre artes e culturas foi um jeito que a ditadura encontrou de podar a emancipação do poder popular do Mercosul, continuando sempre às rédeas do Hemisfério Norte.” – diz Emicida. “A gente é muito próximo geograficamente. É uma região que precisa ser fortalecida economicamente e na nossa frente, artística e cultural. Eu tenho uma admiração gigante por vários artistas da América Latina, inclusive a Moral. Eu cresci ouvindo artistas brasileiros regravando músicas de outros artistas latinos importantes sobre liberdade e amor de uma maneira muito mais profunda do que a gente tem no mercado de música hoje. E tudo aquilo poderia ser interpretado com um canto político também. Quando Elis Regina regrava Atahualpa Yupanqui, que é um cantor argentino, dizendo que ela “tem tantos irmãos”, o Yupanqui não tava falando só da Argentina. Estava falando da América Latina como um todo, irmãos na alegria e no sofrimento. Descendemos dos mesmos povos indígenas, muitas vezes. Principalmente o Brasil que é muito grande e vai desde aqui embaixo na Argentina até a Venezuela.”

Os chilenos compartilham da filosofia: “A união de artistas latino-americanos é muito importante pra gente, porque consideramos que fora algumas diferenças culturais, os problemas e alegrias são muito similares por toda a América Latina. Logo, num exercício de responsabilidade para com nosso continente, a partir da arte, é positivo unirmos essas nações para fortificar nossos questionamentos e as críticas aos poderes e sistemas que nos governam. A crítica à inércia social e as questões mundanas também… tudo isso para tentar colocar a identidade da América Latina na pauta, a partir de nossas perspectivas e necessidades. A gente tem que se unir mais. É fundamental.”

 

SOBRE A CONEXÃO EMICIDA-MORAL DISTRAÍDA

“Ironia e sofisticação é o que temos em comum.” resume Emicida. “Lutar por fazer uma música intelectualmente relevante mas ao mesmo tempo reconhecer que quanto mais profunda é uma canção, mais difícil dela mover o aparato do mainstream inteiro a favor dela, porque no geral a inteligência acaba se voltando contra as coisas que o mainstream veicula.”

Moral conta como chapou rapidinho quando ouviram os raps do Zica do Fontalis: “A gente escutou o Emicida uma vez e ali já decidimos que queríamos fazer uma aliança. A gente gostou da música dele, da abordagem lírica que ele trazia. A gente se sente representado no conteúdo musical dele, pela versatilidade de batidas em que ele carrega seu flow. É legal achar um cara assim a milhares de quilômetros de distância que está na mesma busca musical e por quem a gente sente admiração. O resultado foi incrível. Ele construiu o verso dele dum jeito que a gente não esperava, dando um frescor novo para essa música. A gente amou.”

LIRISMO X COMERCIAL

Como qualquer artista independente, pros chilenos também há a dualidade entre arrebatar multidões sem diluir seus refrões:  “Música pop, como qualquer produto de consumo em massa – se você pensar em música como um produto – é dominada pelo mercado predominante. E isso é conflitante quando arte com conteúdo compete com o padrão. Aquela noção de “maximizar lucros e minimizar custos”. Acima de tudo, o povo latino americano não tem educação como prioridade porque a luta para driblar a pobreza tende a limitar qualquer crescimento em termos de herança cultural. Nesse contexto de múltiplas condições históricas, a arte com conteúdo perde. E essa é a responsabilidade de qualquer um que reproduz o modelo sem se arriscar, sejam as gravadoras, rádios e TV ou mesmo os artistas.”

Emicida completa: “São raras as exceções que burlam esse processo. A gente consegue fazer um pouco disso no Brasil mas sabe que canções um pouco mais profundas tendem a ser tornar o lado B dos projetos musicais. Você sabe, a carroça quanto mais vazia, mais barulho faz…”

Ronald Rios

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