Compartilhar

Pose pra foto!

Emicida catou o monstrão DJ Duh para outra produção, o que acontece cada vez mais, visto que a parceria dos dois sempre dá em bons frutos, como foi em “Oásis” ou “Todos Os Olhos em Nóiz”.  E assim começou a nascer “Selvagem”, uma daquelas faca-nos-dente dele, chamando vacilões por nome e tirando um barato. De casa, ele chamou Drik e Fióti. Do mundão, veio Dory de Oliveira, Stefanie e Souto. O que mais você precisa? Ouve a track aí e acompanha o que cada músico tinha a falar sobre colaboração. No final ainda tem uma entrevista bem detalhada do Emicida sobre a canção – mas que nunca é só sobre a canção, né? Vai além. E você vem com nóiz,

Dory de Oliveira

“É uma mistura de ancestralidade, que eu puxo desde Fela Kuti… brincando até o dia de hoje. Eu falo “Sinha, aqui tá a conta, é uma afronta pros Kunta…”, dou um salve pra Zona Leste. É uma canção que é pra inspirar o povo preto, minha quebrada, as minas. Pra mim foi inédito a experiência de tocá-la numa passarela. Desde que o rap é o rap, sempre teve a coisa do estilo. Agora está em outro patamar. E é um legado grande que eles (Emicida e Fióti) estão deixando.”

Stefanie

“Essa música é do asfalto pro palco, da vitória das mulheres. Nossa ancestralidade nossa essência, eu trouxe isso nessas linhas.”

Souto

“É um lance que eu tenho pensado há um tempo. Colocar palavras-chave que remetam à questão indígena. Como tem esse lance de “ser selvagem”, essa parada de guerrear casa com esse som.”

Drik Barbosa

“Essa música traz uma força foda. Cada um traz sua identidade, sua presença. A mensagem é que nóis vai tomar o que é nosso de volta. E celebrar quem a gente é e que a rua é nóiz mesmo.”

Fióti

“No meu modo de ver, o convite que fizemos para as 4 MC’s veio no intuito de dar visibilidade a 4 artistas grandes do nosso tempo, aproveitando a visibilidade da LAB e do nosso maior desfile para mais uma vez trazer novos talentos para que o público procure saber mais sobre o trabalho delas e que isso seja um combustível na carreira solo da cada uma.”f

*****

DVD na rua, apresentador na TV a cabo e perto de estrelar seu primeiro filme. Isso é só o 2018 do Emicida e nem é tudo na real. Cortando a 200 por hora em meio a synths nervosos e um pancadão que só o gênio Duh traz, o Zika anuncia: “Voltei no voo com a Gisele com um terno que custa a propina deles. Hashtag #ChoraMBL”. Então vamos ver a quantas tá a “mente da Lisa e a maloqueiragem do Bart” em pessoa, Emicida:

Ronald: Você bate nos críticos sem segurar a caneta em Selvagem. Entre fake news, noticiário, desfiles, eleições e grana, acha que essa vai ser essa a pegada de 2018?

Emicida: Eu já disse isso, mas repito: 2018 é um ano de guerra. Os próximos, independente do resultado das eleições também serão bastante difíceis. Não só chegamos ao fundo do poço enquanto sociedade, como também estamos cavando mais, aquela coisa de “o brasileiro não desiste nunca” ganha um viés frustrante nesse contexto. Acho que algumas linhas soam como ataques, como pancadas e é importante que doam mesmo, mas a grande verdade é que são deboches, deboches doloridos mas ainda assim deboches. O Hip Hop em sua essência é um movimento insurgente e todo movimento insurgente gera uma reação contra insurgente, como no Vietnã, Iraque ou no Afeganistão. Pessoas que querem ser senhoras de seus destinos se rebelam contra os invasores. Esses invasores junto com aliados locais que cometeram suicídio de alma, respondem a movimentação dos insurgentes com as armas que consideram ter na mão. Nesse sentido nada é novo, quem odeia a gente é quem sempre odiou Abdias do Nascimento, Zezé Mota, Grande Otelo ou os Racionais.

Ao ser alvo deste ódio burro, somos instantaneamente colocados ao lado dessas pessoas que muito admiramos e que temos a honra de dar prosseguimento à luta. Em geral sempre evitei responder a essas coisas diretamente, acho pobre, intelectualmente não há substância nenhuma nesses argumentos, mas quando um argumento como um terno de 15 mil ganha corpo e chega aqui pelas mãos de gente que supostamente era dos nossos, preciso dizer algo, não porque haja alguma verdade nisso, aliás o mais frustrante é que se fosse verdade, era um direito meu, mas numa mescla de inveja, pobreza de espírito, racismo e a cultura de likes e lacres, um monte de ignorante faz isso ganhar corpo e assim dá tiros nos próprios pés.

Existe uma parte do que se convencionou chamar de lutas identitárias, quero crer que apenas a parte mais imatura e ansiosa desses movimentos, que se tornou uma linha auxiliar da pior parte da direita, então parafraseando a Fabiana Cozza, eles criam a guerra dentro do nosso Ilê. E essa parte nojenta da direita, só passa no fim do dia pra rir dos destroços e colher uns memes.  O deboche nasce nesse sentido, enquanto vocês estão odiando cegamente o Emicida e suas movimentações, a Laboratório Fantasma está tirando onda na luz, com vitórias que não só são visíveis a todos, mas também são de todos que sonham com um Brasil menos canalha. Nesse sentido, esse tipo de rima significa que mais uma vez colocamos um copo de água limpa na mesa e quem quiser beber, bebe. Quem estiver bem louco de MBL, que se divirta naquele chiqueiro.

Ronald: O que é ser selvagem?

Emicida: Nosso tempo e nosso mundo são selvagens. Ser inofensivo nesse contexto é ser suicida. Existem milhões de configurações de revolução. Os signos mais populares disso já eram. Houve uma revolução de charuto, boina etc… Mas no nosso tempo e espaço os signos são outros e é importante que se saiba ler isso. A Dory de Oliveira com um Nike no pé rimando pra caralho e batendo de frente com o mundo que mata gente como a gente sem pensar duas vezes, é uma revolução ambulante, é buscar a liberdade. Poucos conseguem sacar a força disso nesse ambiente de humanidade rasa e academicismos de playboy que tem tentado sequestrar a verdade do movimento Hip Hop para tornar ele uma mera ferramenta das suas vaidades burguesas e – por que não dizer racistas também? Então, gritamos que somos selvagens. Selvagem é aquilo que não se doma, não se controla, aquilo que foge do que você chama de civilizado; Gritar isso é gritar que estamos pouco se fodendo pra um conceito de civilização que escolhe quem tem o direito de ser humano a partir da cor da pele ou da identidade de gênero. Que se o correto e aceitável é aquilo que não faz questão de nos ver vivos, então que se foda, seremos selvagens.

Ronald: Como foi colaborar com Souto, Dory e Stefanie nessa?

A gente sempre teve a honra de ter por perto muitas garotas incríveis, artistas gigantes que devido aos vícios dessa sociedade em que vivemos acabam tendo menos visibilidade e possibilidade de se emancipar. Mais do que falar que as coisas precisam acontecer, é importante que se faça as coisas acontecerem, então juntamos um time que admiramos há anos e que acompanhamos com muito amor, torcendo para que cresçam cada vez mais. Stefanie é sem palavras, ela é uma entidade, admiro desde quando o Kamau a apresentou no Simples para todos nós. Dory é hard core, insana, a personificação do espírito selvagem que mais amamos e é uma artista gigante que vocês ainda não viram nem 10%. A única com a qual não havíamos trabalhado ainda era a Souto, mas acompanhamos o corre dela e esse momento chegou e foi incrível. Ela é foda demais e uma pessoa com um coração gigante. Quando olho para ela vejo muito a mim mesmo no início… cara de mau e coração de manteiga. Tem muito artista foda hoje em dia graças a Oxalá. A Drik é sem palavras, vai voar cada vez mais alto se Deus quiser, porque ela é foda demais e a pessoa mais gente boa do planeta. Ela me lembra os maiores artistas que tive a honra de conhecer.

Em geral, parece haver uma cota de mulheres nas colaborações, cyphers e tudo mais. Então eu quis virar isso ao contrário nesse single, ter 4 monstras arrebentando e ter eu, Fióti e o DJ Duh (produtor da faixa), apenas na contenção ali, tendo a honra de fazer parte desse encontro. Espero muito que as pessoas busquem o trampo delas e as fortaleçam para além desse som. Que as pessoas busquem vários e várias artistas incríveis que estão no corre, tipo Brisa Flow, Thiago Jamelão, Alinega, Muzzike, gente foda e que representa a essência da música de rua em seu estado mais puro.

Ronald Rios

Compartilhar