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Quando estávamos fazendo o disco “Doozicabraba e a Revolução Silenciosa”, havia um esqueleto de canção que falava sobre a rotina de um trabalhador comum, aquele herói invisível que lota o transporte coletivo antes do sol nascer todas as manhãs.

Cada pesquisa que faço para um novo disco traz outras mil pesquisas e assuntos que vou anotando e mergulhando aos poucos. Inicialmente era para termos um verso do Freddie Gibbs nesta música que passou a se chamar Cacariacô e no refrão traz nossa grande irmã, Fabiana Cozza. O gringo não sacou direito o tema. Era estranho à temática local dos estadunidenses, essa parada “Work Class hero” era muito John Lennon pós-Beatles, muito anos setenta, pouco sentido hoje naquela localidade. Abdicamos do verso em inglês e abraçamos a história a ser contada. Freddie viria a participar de um remix da nossa música “9 Círculos” algum tempo depois num remix do Statik Selektah e isso nos deixou imensamente felizes, como fãs dele que somos.

Eu estava viajando em Milton Nascimento e cantos de trabalho. Numa tarde, ouvindo discos e conversando com Fabiana, que é pesquisadora de verdade, me falou do disco “O Canto dos Escravos” que eu nunca tinha ouvido. Fui atrás e foi uma descoberta incrível pois de maneira não racional, aquele disco é uma das minhas teses mais apaixonantes – a de que existiu uma espécie de criolo brasileiro, um idioma preto local, resultante da imensa quantidade de africanos sequestrados trazidos para o Brasil em condições desumanas e que trouxeram em seu coração e memória seus idiomas e isso foi se mesclando a língua de quem os oprimia de maneira a criar uma nova forma de se comunicar. Aquele filme “Terra Deu, Terra Come” passa um pouco por isso. O disco é resultado da incrível pesquisa do – também incrível – filólogo Aires da Mata Machado Filho, que com seu livro “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais” oferece uma verdadeira passagem para embarcarmos em uma máquina do tempo e conversarmos com o contexto que gerou as doces palavras que nossos avós traziam na boca.

 

Na estrutura musical do disco filho do livro, a simplicidade era rainha. Geraldo Filme, Clementina de Jesus e Tia Doca sobre a percussão classuda de Djalma Correia, Papete e Don Bira, conduzem jazzísticamente ou melhor, sambísticamente esta imersão em palavras que conversam diretamente com uma faceta pouco conhecida do que me arrisco a chamar de viés afetuoso de um ontem bastante sangrento, que assim como as raízes fortes de um baobá, soube preservar-se em meio a tantas rochas, romper concretos e asfaltos e alcançar a minha geração. A música é sempre uma conversa. Nesta, este super-grupo nos aponta suas dores, tristezas, sonhos e pequenas alegrias na sofrida rotina que tinham. Tudo tendo o tambor como centro e a história como senhora.

Conheço o som das Ibeyi há algum tempo. Sempre fiz esta associação entre o que elas criam e o que Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme gravaram em 1982, mas que havia sido recolhido pelo professor Aires da Mata Machado Filho em (!!!) 1930.

“River”, uma de suas mais populares canções, tem no cerne a mesma receita que nosso power trio brasileiro lançou mão para dividir aqueles cantos (também conhecidos como vissungos). Acho tão próximo que fico grato de conhecê-las (e sempre que nos encontramos fico repetindo as histórias do disco), seus tambores e sons, seu cantar em yorubá, que assim como o yorubá destas terras, traz palavras que até na Nigéria são pouco conhecidas, me emociona, pois na oralidade, este imenso valor africano que é uma atemporal atitude de curvar-se ante a palavra, sinto que elas conectam tudo.

“Hacia El Amor”, canção que compusemos em conjunto, passeia por idiomas mil, agogôs e sintetizadores convivendo em paz. Como nos terreiros pequenos de quebrada, onde em uma casa está acontecendo a gira e na casa do lado alguém assiste Stranger Things e o som de ambos em algum momento se torna uma coisa só.

Estamos no caminho do meio, somos o elo. Tudo amarrado carinhosamente por nosso irmão Márcio Arantes. É minha primeira vez gravando em espanhol, experimentando, curioso que sou (tenham paciência comigo) e falando na língua dos hermanos que nos cercam, é uma forma de dizer obrigado ou muchas gracias à inspiração que me foi dada por Atahualpa Yupanki, Julio Jaramillo, Buena Vista Social Club (onde a percussão era conduzida pelo pai das Ibeyi, o grande Angá Diaz – vale conhecer seu belo disco Echu Mingua também).

Fiz 3 novas amizades nessa jornada: Lisa, Naomi e a mãe delas Maya, sem a qual seria impossível chegarmos onde chegamos. Nas minhas melhores experiências em estúdio, saí de lá com irmãos e irmãs pra vida e uns sons pra ouvir durante a minha passagem, pra ouvir e compartilhar, Foi assim com Wilson das Neves, com Jair Rodrigues, Pitty, Vanessa da Mata e tantos outros irmãos-colegas de profissão que acabaram por se tornar a minha tão sonhada grande família, todos unidos pelo som.

Sinto em minhas novas amigas, as Ibeyi, a energia dos espíritos antigos que retornam para contar suas histórias e dividir sua grandeza em novas plataformas. Minha gratidão explode e emociona por isso. Elas me lembram Clementina de Jesus,Tia Doca e Geraldo Filme. Toda vez que alguém grandioso hoje, me lembra alguém grandioso de antes eu me emociono e agradeço. Somos fruto de uma história muitas vezes perversa, e é cantando que recontamos e consertamos o olhar do mundo a respeito de si e do todo. De certa maneira nosso trabalho é corrigir o ontem. Cantando é que lavamos os olhos do planeta e o fazemos enxergar quem realmente somos. Cantando é que criamos o futuro, consertamos o presente e honramos nossos ancestrais que estavam aqui no passado. Parafraseando com outro sentido, um dos ditos populares favoritos do apressados, no final – é tudo pra ontem.

Emicida

Clique no banner e ouça “Hacia El Amor”:

 

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