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Mandume foi um rei angolano que resistiu bravamente às invasões europeias. Eu quis fazer um som e usar essa história para afrontar essa coisa das pessoas terem uma certeza de onde é o lugar dos pretos. Ser arrogante mesmo. Responder a altura ao hábito comum de achar que enquanto os pretos estão calados, na miséria, tudo permanece no lugar certo. Não tem nada mais errado do que isso. Nosso lugar é onde a gente bem quiser e vão me enfrentar. Seja lá quem for, pode chegar e permanecer por ali.

A gente estava em Los Angeles. Eu e o Rafael Tudesco. Começamos a fazer esse beat ouvindo umas paradas de Angola, umas coisas lá dos anos 60. E desde o começo, essa música já me sugeriu que o tema ali tinha que ser um barato grande, transcendental, sério. Eu queria rimar com outros MC’s nesse show. Fazer aquelas músicas tipo “Enxame” do SP Funk com vários monstros. Eu convoquei alguns dos meus favoritos nessa. Saca só:

Drik Barbosa: admiro muito e há muito tempo o que ela faz. A gente já trabalhou junto na música tema do filme “O Menino e o Mundo”. Eu lembro dela menorzinha nos shows, na Batalha da Santa Cruz. É fascinante ver como ela cresceu musicalmente. Acredito muito nela como uma voz importante que pode salvar e fazer com que floresçam várias outras vozes pela quebrada.

Amiri é um dos meus MC’s favoritos. Adoro o jeito com que ele brinca com as palavras, a rítmica delas. Ele tá numa fase bonita, espiritualizada, preocupado com o destino do mundo. Admiro isso. Acho que esse tipo de coração precisa falar pra muita gente. Já tem muita gente vazia falando alto por aí. É muito bom poder emprestar o microfone a alguém que tem algo realmente muito importante a dizer.

Lembro do Rico há muito tempo atrás. Não lembro dele na Santa Cruz. Acho que a gente não chegou a se trombar lá. Mas eu lembro dele numa época em que eu era assistente de estúdio e no caminho que eu ia pro trabalho, no mesmo horário ele ia pra igreja e a gente ia conversando às vezes. Não sabia que ele era esse monstro. Quando eu vi faz um tempo uns vídeos desses que os camaradas vão gravando e passando pelo WhatsApp, eu pensei: “Opa, aí vem pedrada”. Ele é um cara com discurso, estética e texto muito importante pro Hip Hop e pro Brasil nesse momento. É uma honra contar com a criatividade dele aqui.

O Phill (Muzzike) é do Terceira Safra, uma meninada responsável com o microfone na mão. Gente que embora mais nova, sabe muito bem que o rap não pode – e não é! – ser o Flautista de Hamelin. A gente não pode levar as crianças pro nada. Eu sinto essa preocupação quando ele rima. Sinto isso até nos temas menos tensos. A poesia dele é algo que me deixa feliz porque ela é livre. E ciente da responsabilidade que é ser livre.

Raphão Allafin: Sou fã do estilo dele. Da figura, da música dele. Eu fiquei maluco com a versão dele para “Eu Tô Bem” da Remixtape. Ele é maloqueiro, leva uma mesmo na rima, tira onda, suingando, tá nem aí pros bico. Inteligente e assim como todos nessa música, é um grande pesquisador. Tem a mente lá na frente e é preocupado com nossa ancestralidade, com a auto-estima dos nossos irmãos e irmãs, dos pretos, das pretas. Sabe que a gente precisa tocar nesse assunto e como isso é urgente. Pra mim, ele chega na cena que nem uma entidade, dessas que vem pro nosso plano de tempos em tempos com uma missão. A missão dele nessa vinda? É rimar, mano.

Emicida

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