Compartilhar

Rappin Hood e Emicida fizeram uma conexão entre a São Bento e a Santa Cruz: o primeiro local é o berço do Hip Hop em São Paulo. Break dancing, batidão nas latas de lixo e várias lendas do rap se conheceram ali, fazendo do local faísca do som que seria a revolução cerebral das periferias brasileiras. A Santa Cruz é o ponto de encontro semanal – faça sol, chuva, natal, ano novo e o que mais for, nunca pára! – dos freestyleiros que querem batalhar nas rimas. É muita criatividade transbordando naquela saidinha do metrô. Dali vieram vários nomes fundamentais pro Hip Hop, como Rashid, Marcello Gugu, Projota e Emicida. Foi ali que o movimento se reinventou e ganhou oxigênio de monte. MC’s novos saem de seus estados apenas para conhecer a icônica localização e poder batalhar no celeiro.

“Da Estação São Bento Ao Metrô Santa Cruz” é uma declaração de amor crua, sujona, bem maloca mesmo, a esses dois locais que fizeram, fazem e sempre farão parte vital do mapa do rap brasileiro. É uma aula de história do rap em quatro minutos e meio ministrada por dois mestres consagrados na cultura, mostrando que o tempo é só um detalhe. Estamos todos juntos. E esse monte de rap foi em cima duma base clássica boom bap dos rueiro dos anos 90 feita por nada mais nada menos que – descanse em paz, monstrão – DJ Primo!

 

Confira a entrevista que eu fiz com eles sobre a canção, o valor do Hip Hop em suas vidas e a como duas estações de metrô mudaram a história da música brasileira.

Ronald: O que a Santa Cruz representa pra você?

Emicida: A Santa Cruz foi – e é -, um ponto de colisão de universos. Manos e minas de várias quebradas encontraram ali um jeito de duelar na rima. Aquilo não era uma tradição comum em São Paulo. Quer dizer, você tem duelos de repentistas, tinha eventos pontuais onde aconteciam batalhas de MC’s, mas de forma fixa, semanal, num tinha nada pra nóiz. Então foi ali que uma semente foi plantada e a primeira leva de MC’s, tipo eu, Marcelo Gugu, Rashid e Projota, que batalharam ali, acabaram transformando aquele lugar num templo. Depois outros grupos foram dando continuidade àquela parada sagrada que estava acontecendo e assim segue até hoje.

Ronald: E a São Bento pra ti, Hood?

Rappin’ Hood: Minha grande escolinha, né? Onde tive oportunidade de ter contato com toda a velha guarda do Hip Hop brasileiro. Os grandes mestres: Nelsão, Região Abissal, JR Blow, Thaíde e DJ Hum, MC Jack, Código 13. Essa rapaziada, o primeiro time. Pude aprender bastante com eles. São Bento é a escola em que eu fui matriculado.

Ronald: O que o Hip Hop fez por vocês?

Emicida: O Hip Hop salvou minha vida. O hip hop e as histórias em quadrinhos me fizeram ser o que eu sou hoje: aprendizado e compartilhamento.

Rappin’ Hood: Fez muito, muito por mim. Eu não tenho nem como agradecer. Mudou minha vida. Minha vida poderia ter sido outra coisa. Eu poderia ter ido prum lado muito ruim, crime, drogas… o Hip Hop me salvou. É tudo pra mim. Transformou minha juventude e a de muitos. Vejo que hoje ele tá atingindo um grau diferente. Durante muito tempo ele foi muito forte pra juventude de periferia. Hoje eu vejo ele nas faculdades… garotos de classe média alta fazendo rap também. Isso é ótimo, por que não? Bandas de garagem de rap, Hip Hop. É importante falar com todos os públicos e cumprir a função dele. A função que Afrika Bambaataa pregou. Eu acho incrível o Hip Hop em todas as esferas. É bom quando a gente transforma da seguinte maneira: dá voz, esperança eforça pro jovem de periferia. E também dá consciência ao jovem que vem de uma outra classe social. Aprendizado pros dois lados é importante. Da hora isso.

Ronald: O que eu gosto nesse som é que é um rap mais direto. Cêis quiseram resgatar esse som mais “ruas de Sampa”? Largado, mais sujão…

Emicida: Tem um lance foda aí que é uma batida do Primo (falecido em 2008), então é uma homenagem também. Quando o Hood me falou isso eu fiquei mais feliz ainda porque a perda de um dos maiores DJ’s que tínhamos foi um baque que nos deixou deprimidos. Queria homenagear ele.

Rappin’ Hood: (Rindo) Na verdade, Hip Hop puro, né? Puro Hip Hop do jeito que ele é. Beat e rima. Boom bap, é isso aí! Essa base foi feita pelo grande Alexandre Muzzillo Lopes, nosso querido DJ Primo. Trabalhou como meu DJ por alguns anos. A gente teve chance de fazer alguns trabalhos juntos. Essa base era uma que a gente separou pra quando fizéssemos um disco juntos. Grande DJ Primo.

DJ Primo – Foto: UOL

Ronald: E como foi colaborar com o Hood, Emicida? Um cara que você devia ver na TV quando criança…

Emicida: Um sonho. Hood é uma das minhas referências. Direto cantamos músicas dele no show e fazemos homenagens ao Posse Mente Zulu. Ele e o Jhonny MC são caras importantes demais pra nossa música. Eu chapava no som do Hood desde que conheci, acho que ele elevou o nível com Sujeito Homem Vol 1. Aquilo ali é um dos discos mais importantes do rap brasileiro.

Ronald: E aí, Hood? Como foi trampar com o Emicida?

Hood: Foi bem legal! Eu já observava o trabalho dele desde a música “Triunfo”. O primeiro cara que me falou dele foi o Ary do Placa Luminosa. Depois a gente se conheceu, ele apareceu nos bastidores do “Manos e Minas”, no tempo que eu apresentava e a gente trocou ideia. Eu saí tocando a música dele na rádio assim como o Primo tocou nos bailes. Um grande talento, um grande MC que estava chegando, despontando. E agora taí consagrado um dos monstros do rap brasileiro.

Ronald: Emicida, você é um rapper que sempre presta reverência as gerações anteriores. Acha que o MC’s de hoje em mais evidência esquecem a gênesis da cultura?

Emicida: Se você não quiser se perder é importante que você lembre de onde veio, por isso gosto de lembrar de quem veio antes, até porque amanhã o “ontem” serei eu e eu não quero ser esquecido. Quero criar uma cultura de gratidão e reverência a nossos ídolos enquanto eles ainda estão aqui. Ao reverenciar meus mestres, mostro pros meninos que estão chegando que isso não começou ontem, que tem uma história e que a gente precisa cuidar bem da nossa história. Sobre os MC’s de hoje fazerem isso pouco, eu nem acho que seja maldade ou esquecimento… é uma coisa de desconhecimento mesmo. Infelizmente é uma história pouco contada e nesse aspecto nem dá pra odiar quem não a conhece. O que podemos fazer é compartilhar ela e torcer pra que chegue aos corações com a intensidade que chegou aos nossos.

Rappin’ Hood: Acho muito legal quando é natural. Sempre foi natural do Emicida, sempre me tratou com respeito e a recíproca é verdadeira. Acho da hora o trabalho dele, da geração dele. Gosto pra caramba de Rashid. Acho legal o trampo dele. Curto os 3 Temores, pô! Essa geração tem muito a mostrar, muito a trazer pro rap, a geração das rinhas. Acredito muito nessa rapaziada. Marcello Gugu, Flow MC, Bivolt, rapaziada que tá no meu coração. Flora Matos sensacional, Bitrinho, rapaziada do Damassaclan também, acho legal. Por mim sem problemas essa rapaziada mais nova aí. Os meninos do Costa Gold a gente conversa também, sem problema. Alô Nog! Meu sonho é ver um festival com a única escola: que somos todos nós juntos. Racionais, MV Bill, Dexter, Hood, RZO, Haikaiss, Emicida, Projota, Rael… todo mundo junto seria ótimo.

Ronald: Quais os planos do Hood?

Rappin’ Hood: Eu não sou um cara de muitos planos, costumo ir vivendo. Deixo o barco correndo e vou junto com ele – mas com objetivos, com focos. Meu objetivo é não parar mais de gravar – não ficar mais tanto tempo sem gravar, sem lançamentos. Tô feliz, é uma nova fase, nova gravadora, nova oportunidade de continuar trabalhando. Também trazer trabalhos, sons que estavam guardados. Não só meus, mas dos meus parceiros: Lil MR, Jhonny MC. Posse Mente Zulu. Tamo aí de volta. Nunca parou mas deu uma reciclada. Esse é o plano: continuar trabalhando e colocando músicas nas ruas. Alô 4 Naipes (Grupo formado por Hood, Sandrão do RZO, Sombra do SNJ e Tio Fresh do SP Funk), num esqueci de vocês! Esse projeto também eu tenho muito carinho. Esses são meus planos: continuar trabalhando e ativo no Hip Hop. Ainda me considero um cara novo, posso produzir muito no Hip Hop. Quero deixar também um aviso: sou rapper. Vou continuar rapper. Existem especulações sobre idas pra cargo político. Ainda não é a hora. Continuo rapper, continuo firme. 2018 Rappin Hood está firme no Hip Hop brasileiro. Continuar trabalhando. Quero agradecer Emicida, Fióti, toda a rapaziada da Laboratório Fantasma, você também, Ronald. Sensacional. Obrigado, rapaziada. Vamos fazer de 2018 o ano do Hip Hop. Fé em Deus e pé na tábua.

Ronald Rios

Compartilhar