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Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é QuenteBoa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Orlando, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Orlando chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

 

Texto publicado originalmente por Toni C no site LiteraRUA.

 

Foi com um pouquinho de timidez que o Rubel chegou ao Emicida. Enquanto vinha criando “Casas”, seu novo álbum, o músico carioca andava para um lado e pro outro com a discografia de Emicida em seus headphones. E ali começou a montar “Mantra”. A primeira obsessão eram os tambores, foi onde nasceu a música. Todo resto é construído ao redor deles. Acordes, metais, vozes e o boom bap pique Q-Tip vieram como rico acompanhamento os tambores africanos tão conectados ao som que Emicida trouxe no aclamado “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…” numa canção de nome “Mantra” que Rubel deixou para sua livre interpretação de cenário, em que esse mantra pode ser sua conexão com Deus, com sua família, com um amigo, com o mundo, mas com uma mensagem central: manter-se forte na caminhada. O que o Rubel não esperava é que a música enviada ao Emicida, com o espaço certinho para ele – quem sabe – encaixar seus versos ganhou o coração dele já no refrão: “Não me deixe esquecer que a gente não precisa de nada.” Aí o Zica se emocionou e só tentou retribuir o sentimento ouvido em forma de rimas. Confira esse bate-papo que tive com os dois músicos:

Ronald: Como foi colaborar com o Emicida?

Rubel: O Emicida era uma das principais referências quando eu tava gestando o disco, lá no comecinho do processo, ainda buscando a cara e a sensação das músicas. Colocava os discos dele pra tocar e ia pra rua, ouvir e viajar no que ele tinha feito, nas histórias que ele contava, naquelas vinhetas faladas, nas histórias que eu mesmo queria contar. Ainda faço isso, na verdade. Fiz muito com Pantera Negra, de colocar no fone e ir pra rua, andar e ouvir no repeat. Agora imagina só ter esse cara, que é sua referência musical, e em outros vários sentidos, cantando no teu disco? Não imaginava. Vou rasgar ceda aqui, sim, porque sim.

Corta pra meses depois: eu tomo coragem pra mandar a música pro Fióti. O Fióti me responde que o Emicida gostou e que ele vai me entregar a música na segunda-feira. Eu acho que é piada, papo de carioca. Sorte que o Fióti é paulista. Na segunda de manhã, eu abro o instagram, e vejo uma foto do Emicida no estúdio, na noite anterior, com o braço pro alto e a legenda “Glorificando de Pé.” Aí fudeu. Algumas horas depois eu recebo o arquivo com a voz do Emicida isolada, aquela mesma voz que eu já tinha ouvido tantas vezes na construção desse disco e da vida, “Somos poeira das estrelas, nada além, frutos do acaso, soltos no tempo como nuvens”. Fiz o que? Deu só pra chorar. Como foi colaborar com o Emicida? Foi louco.

O carioca Rubel acaba de lançar álbum novo: “Casas”

Ronald: Como foi passar de inspiração pro álbum todo a ser de fato um participante ativo da obra do Rubel?

Emicida: Me sinto homenageado, lisonjeado pra caramba ao saber disso. O Fióti conhecia mais o som do Rubel, eu conheci há menos tempo e conheci da maneira certa: a música dele também me ajudou em um momento difícil.

Ronald: Quem produziu o som?


Rubel: Eu produzi junto com o Martin Scian, um argentino estudioso de Física e de Engenharia de Som que há alguns anos abriu um estúdio aqui no Rio, o Espaço Sideral.

Ronald: Rubel, cê optou por um boom bap misturado com uns tambores de música afro. Como essas duas sonoridades vieram na sua cabeça?

Rubel: A ideia dos tambores veio desde o início. Essa música é uma reza, um pedido de proteção. E eu tenho uma relação breve, mas forte com a Umbanda. Gravamos com três percussionistas que trabalham direta ou indiretamente com a Umbanda, e isso virou a fundação da música. A partir daí foi um processo de uns seis meses e muitas, e muitas, e muitas gravações e regravações até chegar no boom bap.

A gente tinha esses tambores (gravados fora do click e depois passados no flex compasso por compasso, para poder receber um beat), mas não sabia como construir a música em cima. Tentamos recortar um bumbo do marvin gaye, com uma caixa louca de outro lugar, pegar uma agogô do Gil, mas não funcionava. Gravamos uma bateria de verdade, mas também não funcionava. Tentamos de tudo e a música não acontecia. A única coisa que prestava eram os tambores. Até que eu achei um loop de bateria de uma música dos anos 70, sampleei, e a música pegou fogo. Me lembrou um pouco de A Tribe Called Quest, aquele sample duro de bateria com um baixo acústico e tudo mais. A partir daí, gravamos todos os outros instrumentos e a música aconteceu.

Ronald: Essa pegada forte da África que essa música carrega é algo que tem rolado bem mais na nossa música pop jovem e você incorpora isso há muito tempo, Emicida. Se sente um pouco responsável por trazer esse som africano, que tá caminhando para ser a música popular brasileira do século XXI?

Emicida: Eu acho que esse é um caminho involuntário na música e na arte feita no Brasil. Nem acho que é uma responsa minha não. Djavan e Martinho da Vila já estavam cantando essa jogada a décadas atrás – isso pra dizer alguns dos mais conhecidos. A África é mãe de algumas das nossas características mais interessantes. É impossível que isso não apareça na nossa música.

Ronald: O tema da música, você fez a letra primeiro e mandou pro Emicida ou fez a letra do redor do verso dele?


Rubel: Eu queria mostrar serviço, pai. Mandei tudo bonitinho, o arranjo todo gravado, a letra caprichada, já mixado, pra ele ouvir e no mínimo respeitar meu trabalho. Deixei só um espaço vazio no final, quando o bicho tá pegando, com as cordas e os metais e o coro, pra, se tudo desse certo, ele entrar.

Emicida:  Ela saiu quase que um freestyle, porque a emoção que ela despertou em mim foi profunda e eu precisava ouvir o que ele estava dizendo ali. Então eu só me concentrei em organizar os pensamentos e registrar.

 

Ronald: O que você quer que essa música signifique pras pessoas? Ela fala muito com o brasileiro no corre…

Eu queria que significasse alguma coisa especial e particular pra cada pessoa. As músicas que mais me tocam são específicas o suficiente pra dar o papo, mas abstratas o bastante pra cada pessoa se apropriar dele e projetar sua própria história. Foi um pouco isso que eu tentei fazer, e acho que é isso que a rima do Emicida também faz nessa música: ela dá o papo mas te deixa livre pra interpretar a partir da sua própria experiência.

Por exemplo, o primeiro verso é “Ó meu Pai, se tu existes” fala um pouco sobre uma relação ambígua que eu tenho com Deus, que é uma fé absoluta de que ele existe, junto com uma desconfiança racional de que não faz nenhum sentido ele existir. Quando minha irmã ouve, ela associa diretamente ao nosso próprio pai, que faleceu há pouco tempo. “Ó meu Pai, se tu existes”. Será que você tá aí ainda, em algum plano, olhando pela nossa família, ou que você já partiu daqui de vez? E essa interpretação dela é mais bonita ainda.

Agora, mais especificamente sobre o que tá dito e colocado ali, pra mim, é um pedido de proteção, para ficar firme no meu caminho e no que eu acredito que seja meu propósito. E mais pro fim, um pedido de proteção aos mestres e fundadores da nossa música, para que eles olhem por nós, para quem tá fazendo música agora, e nos ajudem a levar essa música adiante, nos ajudem a honrar a tradição. Mas o que eu acho mais bonito é cada pessoa fazer o que quiser com isso.

Ronald: E você? Essa música é pra quem, Emicida?

Emicida: Essa música é para mim. No dia que ouvi ela, eu estava péssimo. Tinha recebido uma notícia muito ruim, um problemão na vida pessoal. Sempre tem mil tretas mas de repente aparecem umas que são ultra inesperadas e nesse dia eu havia sido pego por uma delas, uma péssima. O Evandro (Fióti) me mandou o som por WhatsApp e eu nem sabia que era pra eu fazer um verso nela. Às vezes ele me manda sons pra que eu conheça e eu achei que fosse isso. Quando o Rubel falou “não me deixe esquecer que a gente não precisa de nada”, eu caí em lágrimas, mano. Que barato foda é a música e sua força salvadora! Eu me senti abraçado ali, enxerguei um norte e levantei a cabeça refletindo melhor. Eu devo agradecer ao Rubel por esse som e pela oportunidade de cantar nele. Ele foi um raio de sol na minha tarde que estava nublada e triste. Se em algum momento minha música fez bem pra ele e o salvou, ele pode se considerar vingado (encerra Emicida, dando risada).

Ronald Rios

 

 

 

Dia 10 de maio o Emicida volta a Porto Alegre para tocar no palco do Opinião, por onde já passaram vários monstros da música brasileira e gringa. Para já dar um salve pro público da cidade e adjacências, Emicida fez um freestyle, ali em casa, no celular mesmo – mais freestyle impossível – com uma porrada de curiosidades e fatos da capital gaúcha. RAP SKILLS é pra quem  Clique aqui para comprar o ingresso. Agora aproveita o free, vai:

 

Mais um episódio de “NÓIZ com Emicida” na área. Hoje, Emicida e Ronald Rios falam sobre como foi a recepção da primeira mixtape dele “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida Até Que Eu Cheguei Longe” e entrevistam o rapper niLL que lançou seu primeiro CD “Regina” ano passado e vem colhendo os frutos disso.

Direção geral: Ronald Rios
Direção técnica e edição: Toni Laet
Arte da logo: André Juventil e Emicida

 

Salve! A turnê nova “10 Anos de Triunfo” tá chegando em poucos dias mas não poderíamos encerrar a turnê do “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…” sem passar os olhos sobre o que foram esses quase 3 anos de música nos palcos do Brasil e do Mundo! Cola com a gente, pique Telecurso 2000, pois é hora da revisão:

Diretor: Ronald Rios
Câmera: Jéssica Matoso
Editor: Toni Laet