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Cuidado, lá vem a Souto. Soco atrás de soco, ela rima na ferocidade e eficiência de um Mike Tyson no seu auge. Você até vê ela chegando quando o DJ solta o beat, mas só vai se dar conta do nocaute recebido quando acordar no hospital quarta que vem. É rima rueira, sujona. Parece uma rapper que grava 16 barras como se fossem as últimas 16. Melhor, parece que grava 16 como se tivesse mais 1000 para colocar no papel pois tem muita coisa pra falar, muito demônio para exorcizar. Uma MC em ascensão e querida entre MC´s grandes, que de olho no que tem de bom e criativo por aí, já a chamaram ela pro feat, como Rodrigo Ogi em “Se Você Não Canta” e agora o Emicida, em “Selvagem”. Não é à toa que a Souto vem crescendo. É talento e trabalho no corre desse jogo maluco que é o rap.

Ronald: Você tem um estilo de rima bem punchline, porrada atrás de porrada, é um rap de batalha, marrento. Como você foi desenvolvendo esse estilo?

Souto: Os primeiros RAP’s que eu tive contato eram assim… E aí depois pra ouvir os gringos eu procurava quem tivesse essas mesma caracteristicas porque eram coisas que eu também pensava e era bem parecido com o meu modo de escrever e tal… A forma como eu fui criada também ajudou muito nisso, a minha personalidade sempre foi meio assim,rs.

Ronald: Como foi gravar Selvagem e colaborar com o Emicida?

Souto: Foi foda! HAHAHAHA. Ele é um cara que eu sou muito fã por toda a história dele dentro do Hip Hop e toda a perspectiva que se abriu depois do trabalho dele, que quer queira ou não, tem que ser reconhecida. Eu fiquei feliz demais por ter a oportunidade de trabalhar com tantas pessoas que foram e continuam sendo minhas referências. Foi realização de sonho mesmo. Foi uma onda!

Ronald: Foda. E quando você falou “vou ser essa parada de rap, num tem outra”?

Souto: Teve uma situação que eu nunca vou esquecer: eu tinha 18 anos e trampava numa loja de bacana (que eu odiava), e aí eu me peguei chorando no estoque, pensando: “Que que eu tô fazendo aqui? Eu nunca quis isso aqui, eu QUERO RAP” e aí saí do trampo. Ali, mesmo sem perceber eu tinha entendido que não adiantava correr porque eu não iria ser feliz de nenhum outro jeito. Parece clichê mas é a real, quem tá no corre tá ligado.

Ronald: E quando a gente vai poder ver um projeto mais longo seu?

Souto: Eu estou me organizando pra que algo saia ainda esse ano. Tem muitas coisas que eu quero fazer mas eu preciso de tempo pra fazer do jeito que eu sonhei e tal… Mas vai rolar logo menos!

Ronald: Vou aguardar pacientemente. Pra fechar: por que você é Hip Hop?

Souto: Porque o HIP HOP me deu sonhos e fez com que eu realizasse sonhos que eu nem tinha pensado em sonhar! O HIP HOP salva vidas e te dá um horizonte, um norte. HIP HOP educa. A música educa e tudo que eu mais quero é ser pro HIP HOP o que ele é pra mim, e poder dar de volta toda essa força que me foi dada.

 

Ronald Rios

Um brasileiro, um colombiano e um chileno entram num bar. Isso podia ser o começo duma piada mas é só trocar “bar” por “estúdio” e estamos falando de mais um pedacinho dos tentáculos de Emicida se esticando pela América Latina. Dessa vez Leandro Roque de Oliveira, rapper paulistano oriundo das batalhas de MCs – os jornalistas abrem textos sobre o Emicida assim até hoje, 10 anos depois de Triunfo, num orgulhoso exercício de falta de criatividade – gravou um feat no remix de “Canción Bonita”, single de 2017 da banda chilena Moral Distraída. Quem chegou junto também na nova versão foi o colombiano Jiggy Drama. A gente bateu um papo com Emicida e Camilo Schriever (percussionista e empresário da banda) sobre a parceria, que já está disponível para você ouvir. Vamos a isso, senhoras e senhores.

 

SOBRE A RESPONSABILIDADE POLÍTICA DE UNIR ARTISTAS LATINOS

“Existe uma teoria que diz que cortar o intercâmbio entre artes e culturas foi um jeito que a ditadura encontrou de podar a emancipação do poder popular do Mercosul, continuando sempre às rédeas do Hemisfério Norte.” – diz Emicida. “A gente é muito próximo geograficamente. É uma região que precisa ser fortalecida economicamente e na nossa frente, artística e cultural. Eu tenho uma admiração gigante por vários artistas da América Latina, inclusive a Moral. Eu cresci ouvindo artistas brasileiros regravando músicas de outros artistas latinos importantes sobre liberdade e amor de uma maneira muito mais profunda do que a gente tem no mercado de música hoje. E tudo aquilo poderia ser interpretado com um canto político também. Quando Elis Regina regrava Atahualpa Yupanqui, que é um cantor argentino, dizendo que ela “tem tantos irmãos”, o Yupanqui não tava falando só da Argentina. Estava falando da América Latina como um todo, irmãos na alegria e no sofrimento. Descendemos dos mesmos povos indígenas, muitas vezes. Principalmente o Brasil que é muito grande e vai desde aqui embaixo na Argentina até a Venezuela.”

Os chilenos compartilham da filosofia: “A união de artistas latino-americanos é muito importante pra gente, porque consideramos que fora algumas diferenças culturais, os problemas e alegrias são muito similares por toda a América Latina. Logo, num exercício de responsabilidade para com nosso continente, a partir da arte, é positivo unirmos essas nações para fortificar nossos questionamentos e as críticas aos poderes e sistemas que nos governam. A crítica à inércia social e as questões mundanas também… tudo isso para tentar colocar a identidade da América Latina na pauta, a partir de nossas perspectivas e necessidades. A gente tem que se unir mais. É fundamental.”

 

SOBRE A CONEXÃO EMICIDA-MORAL DISTRAÍDA

“Ironia e sofisticação é o que temos em comum.” resume Emicida. “Lutar por fazer uma música intelectualmente relevante mas ao mesmo tempo reconhecer que quanto mais profunda é uma canção, mais difícil dela mover o aparato do mainstream inteiro a favor dela, porque no geral a inteligência acaba se voltando contra as coisas que o mainstream veicula.”

Moral conta como chapou rapidinho quando ouviram os raps do Zica do Fontalis: “A gente escutou o Emicida uma vez e ali já decidimos que queríamos fazer uma aliança. A gente gostou da música dele, da abordagem lírica que ele trazia. A gente se sente representado no conteúdo musical dele, pela versatilidade de batidas em que ele carrega seu flow. É legal achar um cara assim a milhares de quilômetros de distância que está na mesma busca musical e por quem a gente sente admiração. O resultado foi incrível. Ele construiu o verso dele dum jeito que a gente não esperava, dando um frescor novo para essa música. A gente amou.”

LIRISMO X COMERCIAL

Como qualquer artista independente, pros chilenos também há a dualidade entre arrebatar multidões sem diluir seus refrões:  “Música pop, como qualquer produto de consumo em massa – se você pensar em música como um produto – é dominada pelo mercado predominante. E isso é conflitante quando arte com conteúdo compete com o padrão. Aquela noção de “maximizar lucros e minimizar custos”. Acima de tudo, o povo latino americano não tem educação como prioridade porque a luta para driblar a pobreza tende a limitar qualquer crescimento em termos de herança cultural. Nesse contexto de múltiplas condições históricas, a arte com conteúdo perde. E essa é a responsabilidade de qualquer um que reproduz o modelo sem se arriscar, sejam as gravadoras, rádios e TV ou mesmo os artistas.”

Emicida completa: “São raras as exceções que burlam esse processo. A gente consegue fazer um pouco disso no Brasil mas sabe que canções um pouco mais profundas tendem a ser tornar o lado B dos projetos musicais. Você sabe, a carroça quanto mais vazia, mais barulho faz…”

Ronald Rios

O tempo não pára. Já são 3 anos que saiu o “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”. Vale a pena parar um pouco, refletir o olhar como essa história bonita foi escrita. Olha esse doc contando a história de um disco que é uma verdadeira “coprodução” musical Brasil e África.

 

 

Episódio novo do seu podcast favorito no ar. Hoje o Kamau veio trocar AQUELA ideia com Emicida e Ronald Rios: produção musical, Dr Dre, Jay-Z, SP Funk, as produções dos Racionais, e como fazer para o rap não virar o novo rock. Vem com NÓIZ.

Quem é Dory? Resposta rápida: Dory é quem faz o Emicida pirar no flow aí.

Ela destruiu em Selvagem. Pronto. Nem vou ficar titubeando muito porque foi o que rolou. Nascida em 85, Dory de Oliveira é MC que bate forte demais, simplesmente porque precisa fazê-lo. Desconfie de franco atiradores sem causa, James Deans das barras. Celebre MCs que, como diria o poeta, tenham algo a dizer. Dory tem.

Ela carrega na caneta e no flow a fúria e o crânio necessários para sobreviver nesse jogo. Tira um sarro quando é de tirar, cai no seu samba, olha tudo atenta sempre em aprendizado. E logo mais está a empunhar o microfone igual a garra de um pantera negra. Por isso vamos falar com ela hoje. Se liga:

Ronald: Você tá conquistando novos fãs com o passar do tempo. Fazendo música desde 2005, como é ver o fruto do seu trabalho?

Dory: Eu tive contato com o rap na adolescência. Mais só fui assistir um show ao vivo aos 14 anos, na escola aqui na minha quebrada. Era o Xis. Meus olhos brilharam naquele momento… então faço rap desde que eu tinha uns 16 anos. A evolução em cada ano é notável, eu amadureci muito a qualidade das minhas músicas e idéias. Isso atrai mais admiradores e críticos e acaba gerando boas parcerias. Eu estava sendo observada e nem tava ligada, óia! (Risos) Tem muita gente do Brasil que curte meu trabalho e até pessoas de fora já me deram um salve. Recebo várias mensagens da onde a minha voz tá chegando. Não sou famosa, sou uma artista periférica e independente, então a trajetória se torna dificultosa devido a falta de dinheiro pra investir de espaço, patrocínios e oportunidades. Só que algo que eu mantenho é a minha humildade. O respeito que eu trato quem tem carinho pelas minhas paradas… faz uma enorme diferença pois até gente que não é acostumada a ouvir rap escuta o meu, sem restrição de idades, é sensacional!

Ronald: Irado. E o que te empolga musicalmente no rap hoje em dia?

Dory: Ah, eu fico empolgada quando vejo uma galera mostrando seu talento… quebrando as regras que foram impostas e muitas que ainda são! É da hora ver a periferia gerando conteúdo em todas as áreas apesar dos pesares. Trabalho de qualidade feito pelos nossos me empolga igual uma feijoada na laje (Risos).

Ronald: E antes do rap a sua parada era o samba, né?

Dory: Sim, eu sou apaixonada por samba até hoje. Minhas primeiras referências foram Art Popular – LEANDRO LEHART É UM MONSTRO! -, Leci Brandão, Jorge Aragão, Jovelina, Bezerra. São vários… na adolescência antes de me aventurar no rap, eu cheguei a participar de um grupo de samba com os meninos da quebrada. São raízes periféricas que tem tudo em comum, então eu sempre busquei inspiração nas letras de samba, pura poesia, pra fazer minhas linhas em meados de 2007. Cheguei a gravar um samba rap “vambóra”  no estúdio Chatô Laboratório do Edmilson (d’Os travessos). DJ RM era o produtor na época e eu nunca lancei… acho que é um bom momento de restaurar esse som… quem sabe até buscar uma parceria do samba? Aceito indicações! (Risos)

Ronald: Vou pensar em alguém e te retorno… escuta, na sua lírica, você abraça várias bandeiras fortes e pesadas de carregar. Tem sido uma luta boa?

Dory: Nossa, é uma carga pesada. A luta é constante os inimigos estão sempre na espreita querendo um pé pra te derrubar. Ou esperando uma oportunidade pra fazer textão. Ser mulher preta, periférica, rapper e lésbica são bandeiras que a sociedade odeia, então eu tive que aprender a me impor, me defender e atacar. Eu transferi isso pras minhas letras e pro meu estilo de vida. Nunca quis me esconder: eu encorajo outras pessoas. Às vezes sou depressão mas também sou furacão! A meta é essa formar uma legião de pessoas brilhantes e corajosas!

Ronald: Qual é seu papel no Hip Hop?

Dory: Acredito que a artista “Dory de Oliveira” é uma figura importante e que contribui muito com o movimento Hip Hop há um tempo. Porém só não tem a visibilidade que merece. Sempre digo que falta de talento não é… meu papel é fortíssimo. Costumo levar minha trajetória no rap como um filme: a sinopse é de uma menina periférica que descobriu que tinha talento em rimar, em viajar nas palavras, que tem a personalidade de Yansã e um diferencial marcante que é gostar de transformar tudo em poesia, e que apesar de todas as dificuldades, ela veio pra cumprir sua missão nessa reencarnação e contar a sua história!

Ronald: Como foi colocar na rua o single Selvagem? Como tem sido a repercussão para você?

Dory: Foi emocionante! A partir do convite do Emicida sem eu saber como seria o projeto, mas pelas palavras dele já senti que o bang seria pesado. Desde o dia da gravação da música, do desfile, do lançamento, até agora… o retorno está sendo positivo. Estar ao lado de grandes nomes do rap nacional faz muita diferença pra mim e pro meu trabalho. Com certeza “Selvagem” vai ser um divisor de águas. E que eu colha todos os bons frutos dessa obra magnífica sem me deixar envenenar pelos negativos do contra.

Ronald: Qual o próximo passo na carreira?

Dory: Estou com alguns trabalhos no pente e pretendo soltar nos próximos meses sons novos, participações, cyphers, clipes… E mais pra frente juntar tudo isso e lançar um lançar um DVD é meu sonho. Vai ter novidades te garanto!

A gente conta que sim, Dory. Voa! E você, leitor, escute Selvagem:

por Ronald Rios